Todos conhecemos alguém — ou já fomos essa pessoa — que vive num ciclo repetido: começa uma relação com intensidade extrema, tudo é fogo, urgência e emoção… mas passado algum tempo, algo “morre”. Surge o tédio, a dúvida, a sensação de que “já não é a mesma coisa”. Então, a pessoa sai e procura uma nova paixão.
Mas afinal… o que está realmente a acontecer?
A resposta não está apenas no coração. Está, sobretudo, no cérebro. A paixão é um “fogo de artifício cerebral.Quando nos apaixonamos, o cérebro entra num verdadeiro espetáculo químico. Há uma libertação intensa de dopamina, a substância associada ao prazer, recompensa e motivação. É a mesma envolvida em comportamentos viciantes.
Por isso:
Pensamos constantemente na outra pessoa
Sentimos euforia, energia, excitação
Tudo parece mais intenso e urgente
Nesta fase, o cérebro funciona quase como se estivesse “embriagado de emoção”. E atenção: isto é natural. A paixão existe para aproximar duas pessoas. O problema surge quando alguém acredita que isto é o amor em si.
Quando o fogo baixa… e o medo aparece
Com o tempo, o cérebro faz algo saudável: a dopamina diminui e entram em ação outras substâncias, como a oxitocina, ligada à confiança, segurança e vínculo. A relação torna-se: mais calma, mais previsível, mais profunda. E é aqui que muitas pessoas entram em crise. Para quem associa amor a intensidade constante, esta calma é interpretada como: “Já não sinto o mesmo”, “O amor acabou”. “Algo está errado”
Mas, na verdade, nada está errado.
O amor está apenas a amadurecer.
Porque é que algumas pessoas não toleram o amor maduro? Existem várias razões, todas muito humanas:
1. Vício na intensidade- Alguns cérebros ficam “viciados” na dopamina da paixão. Sem euforia, sentem vazio. Então procuram outra pessoa para voltar a sentir o mesmo “alto emocional”.
2. Medo de intimidade verdadeira - O amor maduro exige: vulnerabilidade, exposição emocional, permanecer mesmo quando não é tudo perfeito Para quem tem medo de se magoar, a paixão é mais segura: intensa, mas superficial.
3. Confundir calma com desamor - A nossa cultura romantiza o drama, o sofrimento e o amor turbulento. Pouco se fala do amor tranquilo, que não dói. Muitas pessoas nunca aprenderam que: paz também é amor
4. Histórias emocionais mal resolvidas - Experiências de abandono, rejeição ou instabilidade podem ensinar o cérebro a associar amor a tensão — não a segurança. A grande verdade que quase ninguém conta
👉 A paixão não foi feita para durar
👉 O amor foi. A paixão aproxima. . O amor sustenta.
Quem vive eternamente à procura da paixão não está à procura de amor — está à procura da sensação.
Dá para sair deste padrão? Sim. O cérebro é plástico, aprende e adapta-se. Mas isso exige: consciência emocional, relações seguras, disposição para ficar quando o “fogo de artifício” vira “lareira acesa” Porque, no fim, o amor que dura não é o que arde mais forte — é o que aquece por mais tempo.
Faça terapia.
Cleonice de Fátima de Andrade
Psicóloga Clínica Especialista
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