O desafio de transformar luto em luta
O feminicídio de Catarina Kasten, ocorrido em Florianópolis em novembro de 2025, expõe a persistência da violência de gênero e convoca a psicologia forense e criminal, assim como todos os profissionais dessa área criminalista e a sociedade em geral a transformar o luto em luta. Este artigo homenageia a vítima e reflete sobre o papel da psicologia criminalista na análise, prevenção e enfrentamento do feminicídio nos tempos atuais, incluindo a discussão sobre alegações de transtornos mentais e a atuação integrada das diferentes áreas da psicologia.
O feminicídio é reconhecido como a forma mais extrema da violência contra a mulher. Lagarde (2005) define-o como um crime “não apenas contra a vida, mas contra a condição de ser mulher”. O caso de Catarina Kasten, professora e pesquisadora, violentada e assassinada em uma trilha de Florianópolis, exemplifica como a violência de gênero continua a se manifestar na sociedade, mesmo em espaços públicos que deveriam ser seguros.
Feminicídio e violência de gênero
O feminicídio não é um evento isolado, mas parte de um continuum de violências que inclui assédio, intimidação e agressões físicas e psicológicas. Como afirma Baratta (2002), “a violência contra a mulher é sustentada por estruturas culturais e simbólicas que naturalizam a dominação masculina”.
O agressor e a justificativa das “vozes”
O acusado justificou sua conduta alegando ter ouvido vozes que o incitavam à violência. Essa narrativa remete à psicopatologia forense, que avalia se há presença de transtornos mentais genuínos ou se trata de simulação. Em casos de esquizofrenia, alucinações auditivas podem ocorrer, mas isso não elimina automaticamente a responsabilidade penal. Especialistas alertam que indivíduos com traços psicopáticos podem utilizar justificativas como “ouvir vozes” para tentar reduzir sua culpabilidade. Cabe à psicologia forense diferenciar sintomas autênticos de narrativas manipulativas e avaliar a imputabilidade do agressor
Nos tempos atuais, o feminicídio desafia tanto a justiça quanto a ciência psicológica. Apesar dos avanços em tecnologia e vigilância, mulheres continuam vulneráveis em espaços públicos. Butler (1990) lembra que “os corpos femininos são constantemente regulados por normas sociais que os tornam alvos de violência”. Connell (1995) destaca que a masculinidade hegemônica é aprendida desde a infância e precisa ser desconstruída, e Minayo (2006) aponta que cada feminicídio “desorganiza laços sociais e reforça o medo como mecanismo de controle”.
O efeito do crime
O feminicídio provoca um trauma coletivo que amplia medo, insegurança e normalização da violência; suas consequências psicológicas atingem diretamente mulheres, homens e o coletivo, exigindo respostas integradas de saúde mental, justiça e políticas públicas.
Cada feminicídio funciona como um evento traumático público que rompe a sensação de segurança coletiva e reconfigura a percepção de risco em espaços cotidianos. Além da dor e do luto nas famílias, há uma visibilidade social do perigo que pode levar a mudanças comportamentais imediatas: retração de mulheres em espaços públicos, aumento de vigilância comunitária e pressão por respostas institucionais. Estudos sobre os impactos psicossociais mostram que as famílias, especialmente filhos e parentes próximos, sofrem danos duradouros que exigem intervenção estatal e serviços de saúde mental.
Para muitas mulheres, cada feminicídio reforça a vulnerabilidade percebida e alimenta ansiedade, hipervigilância e sintomas de estresse pós‑traumático. A repetição desses eventos contribui para um clima de medo coletivo que altera rotinas, restringe liberdade de movimento e intensifica estratégias de autoproteção. Psicologicamente, isso pode manifestar‑se em transtornos de ansiedade, depressão e sensação de impotência, além de reforçar crenças internalizadas sobre risco e culpa que dificultam a denúncia e o acesso a redes de apoio.
Já os efeitos sobre homens são heterogêneos: enquanto alguns se mobilizam contra a violência de gênero, outros podem reagir com negação, minimização ou reforço de normas tóxicas de masculinidade. A exposição contínua a relatos de feminicídio pode ativar defensividade, sentimentos de culpa coletiva ou, inversamente, normalização da violência quando não há responsabilização efetiva.
Socialmente, cada ato de violência amplia demandas por justiça e políticas públicas, mas também pode gerar desconfiança nas instituições quando respostas são lentas ou insuficientes. O feminicídio desorganiza redes sociais e econômicas locais, aumenta a carga sobre serviços de saúde mental e cria necessidade de programas de reparação para famílias e comunidades. Relatos jornalísticos e análises públicas destacam que reconhecer o problema é passo inicial, mas a efetividade depende de ações integradas e sustentadas.
Do trauma individual ao trauma coletivo
A repetição de feminicídios produz um efeito cumulativo: cada caso alimenta o imaginário social, reforça padrões culturais de dominação e amplia o impacto psicossocial em larga escala. Isso transforma o luto privado em uma crise pública de saúde mental e segurança, exigindo intervenções que articulem perícia forense, atendimento psicológico, políticas educativas e medidas de prevenção centradas em gênero.
Enfrentar o efeito do feminicídio requer reconhecer suas múltiplas consequências psicológicas — individuais e coletivas — e promover respostas intersetoriais que incluam apoio psicológico às vítimas indiretas, programas de responsabilização para agressores e ações educativas para desconstruir masculinidades hegemônicas. Só assim o luto poderá ser convertido em luta efetiva contra a violência de gênero.
A masculinidade hegemônica está associada a comportamentos de risco, violência de gênero e resistência a mudanças igualitárias. Ao estabelecer padrões rígidos, ela contribui para a normalização da agressão como forma de afirmação de poder, dificulta a expressão emocional masculina e alimenta estigmas contra homens que fogem do ideal.
Concluindo, transformar o luto em luta significa honrar a memória de Catarina Kasten e de tantas outras mulheres vítimas de feminicídio, convertendo dor em ação. Deve-se atuar não apenas na análise do agressor, mas também na construção de políticas que enfrentem a violência de gênero e desmistifiquem justificativas que buscam relativizar crimes hediondos. Como afirma Saffioti, o feminicídio é a ponta do iceberg da violência contra a mulher; combatê-lo exige enfrentar toda a estrutura patriarcal que o sustenta.
Por fim, aos amigos e familiares de Catarina: guardem sua memória com ternura e coragem; permitam‑se chorar, lembrar e cuidar uns dos outros. Que a dor se transforme em força para exigir justiça, proteger quem fica e manter viva a história dela em gestos concretos. Um abraço, uma palavra, uma ação que honre sua vida.
Cleonice F Andrade - CRP: 12/04023
Psicóloga Especialista

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